O desenvolvimento de líderes pode ter início muito cedo na carreira. Da parte da empresa, desde a seleção de estagiários. Da parte do profissional, desde a faculdade. Nesta entrevista, Adriana Chaves*, sócia-diretora da divisão de liderança do Grupo DMRH, fala sobre esses desafios e sobre o momento atual das empresas brasileiras.
As empresas brasileiras têm real preocupação com o desenvolvimento de líderes?
As empresas em geral estão descobrindo que, neste momento de economia aquecida, o que falta para seu crescimento é gente pronta e capaz de assumir novos postos. Falta gente. Portanto, a preocupação com o desenvolvimento de líderes está muito forte.
Pode citar exemplos de ações nesse sentido?
As organizações têm investido muito mais em
assessment e
coaching de seus líderes. Os treinamentos básicos de liderança também estão sendo muito requisitados neste momento, e eu falo sobre autoconhecimento,
feedback, avaliação e reconhecimento, entre outros. O objetivo é preparar uma base de líderes que, até bem pouco tempo, não era vista como muito necessária.
Que principais desafios enfrentam os profissionais da área de Recursos Humanos quando o tema é desenvolvimento de líderes?
Os desafios são muitos. Acredito muito na liderança pelo exemplo. Em organizações onde os bons exemplos de líderes são escassos, o desenvolvimento de novos líderes é ameaçado. Os profissionais da área de RH têm o papel de identificar bem cedo aqueles que chegarão mais longe na empresa e na carreira e encontrar um líder-exemplo em quem esses potenciais possam se espelhar e de quem receberão apoio. Além disso, o RH ainda tem de garantir que eles participem de treinamentos, projetos,
job rotation e reuniões, de modo que possam ampliar sua visão sobre a empresa e o mercado.
É possível identificar líderes no processo seletivo de jovens profissionais?
A identificação de líderes potenciais começa nas fases de seleção dos jovens, desde que o processo esteja desenhado com esse intuito. Podemos, assim, obter bons indícios do potencial para liderar.
Qual o peso das aptidões naturais ou inatas do indivíduo sobre o líder que ele é ou será?
Essa é uma discussão clássica. Eu acredito que todos têm aptidões. Entretanto, existem aqueles que estão abertos e ávidos para desenvolvê-las e aqueles que não estão. E sempre há tempo para rever as escolhas.
Como você avalia o papel das faculdades e programas de MBA na formação de líderes? Alguns dizem que eles não cumprem esse papel.
Concordo parcialmente com isso. Sempre será mais fácil potencializar as capacidades daqueles que já demonstram aptidão para liderar, mas acredito e trabalho com desenvolvimento de pessoas e constato a possibilidade de desenvolvimento de grandes líderes entre pessoas que estejam abertas a isso. Para aqueles que possuem o potencial, as escolas ajudam no aperfeiçoamento, oferecendo-lhes técnicas e comportamentos. Para aqueles que ainda precisam desenvolver o potencial, as escolas certamente os ajudam a iniciar essa jornada de descobertas e de crescimento.
Quanto aos profissionais que serão desenvolvidos, que desafios têm pela frente?
Os universitários devem tomar iniciativa de exercitar liderança em atividades como empresas juniores, comissões de formatura, trabalhos em grupo etc. Devem, ainda, ler sobre o tema, o que ajuda a entender princípios importantes. A escolha da empresa onde estagiar ou ser
trainee é muito relevante. Algumas possuem programas estruturados de desenvolvimento. Mesmo que a empresa onde o jovem ingresse não esteja assim tão organizada, entender o comportamento e o motivo do sucesso dos grandes líderes da organização onde atue é um bom passo, sem falar que o RH sempre pode ser um aliado.
E quanto a quem já caminhou um pouco na carreira?
No livro
Pipeline de liderança: o desenvolvimento de líderes como diferencial competitivo [ed. Campus/Elsevier], Ram Charan, Stephen Drotter e James Noel colocam muito bem três aspectos que devem ser levados em conta durante a escalada na carreira: administração do tempo, habilidades e valores de trabalho. Cada nível requer mudanças relevantes nos três aspectos, e os profissionais têm de saber identificar esses requisitos para alcançar o nível seguinte. Conforme aumenta a complexidade do nível, deve diminuir a dedicação a atividades mais operacionais e crescer o investimento em habilidades de gestão de negócio como um todo. Quanto aos valores, o líder em desenvolvimento deve aprender a fazer por meio de outros, ser
coach, selecionar e avaliar as pessoas. E não se esquecer da importância do
networking, dentro e fora da empresa.
* Adriana Chaves é sócia-diretora da divisão de liderança do Grupo DMRH e está à frente de projetos de desenvolvimento de lideranças que envolvem academias de lideranças,
assessment centres,
teambuildings, revisão de desenhos organizacionais e planos de sucessão em pequenas, médias e grandes empresas. É membro do Grupo G3 de Recursos Humanos e diretora da ABRH-SP Regional Campinas. Adriana é engenheira eletricista e possui MBA em Recursos Humanos.
Fonte: Nextview People -
http://www.nextviewpeople.com.br/
A entrevista é de Alexandra Delfino de Sousa
Portal HSM